Pensando Além do Livro – Parte I – Roteiro

Muitos pensam que escrever significa virar um autor de livros e passam suas vidas vendo a escrita apenas com essa finalidade. Contudo um escritor às vezes tem uma opção interessante, o cinema, escrever roteiros é saber que seu livro vai se tornar algo mais real então como roteiro é mais minha especialidade que a literatura em si. Por isso, venho falar pra vocês as possibilidades do Roteiro.

Um roteiro é basicamente uma história que é escrita com a finalidade de ser filmada e tornar-se um vídeo. Não é apenas o cinema de ficção que se utiliza do roteiro para preparar seus trabalhos na verdade, muitas mídias se utilizam dessa ferramenta para contar histórias. A publicidade, por exemplo, usa um roteiro em geral mais solto e descrito em etapas ou como um roteiro cinematográfico de uma cena. São roteiros pequenos que não costumam contar com mais de uma página (normalmente uma página de roteiro é igual a 1 minuto de filme, mas não é uma formula fixa), um comercial costuma ter por volta de 30 segundos, às vezes mais, no entanto é comum vermos comerciais com 15 segundos. Então, agilidade é fundamental ao escritor de roteiro publicitário, que contém pouco glamour, porém costuma pagar bem.

Documentários possuem um roteiro, porém ele é menos formulaico que demais já que documentários tendem a ser mais realistas. Um roteiro de documentário é parecido com uma lista de coisas a serem feitas e como elas serão feitas. Tem muitas informações sobre horários, iluminação e ângulos de câmera desejados. Ser visual é vital para um roteiro.

Já o roteiro de cinema, ele é um misto de criação e tecnicismo. Um roteiro de cinema conta uma história, existe um drama, evolução de personagens, sentimentos e tudo aquilo que amamos na literatura. Porém a narrativa é técnica, profundamente visual e sujeita a mudanças, tanto pela direção, quanto pela produção do filme, o que significa que um escritor de roteiros precisa de jogo de cintura e muito pouco ego.

Um roteiro de cinema é uma narrativa, acima de tudo, visual, além de ser a guia de todos os presentes na produção, desde os contra-regras, passando pelos diretores de arte, até aos diretores e atores do filme. Todas essas pessoas são responsáveis por parte da vida que preencherá uma história emocionante oculta no meio de Cabeçalhos e Ângulos de Câmera

Formatando um roteiro

Um cabeçalho de roteiro costuma indicar em ordem um número da cena, se ela é interna ou externa, a locação e as condições de luz do ambiente.

Exemplo:
CENA 1 – INT – CONSULTÓRIO DO DOUTOR LADWIG – NOITE

Perceba a caixa alta, cabeçalhos de roteiro usam caixa alta para ajudar e facilitar na leitura e em uma busca rápida.

Após isso o roteiro vai descrever os personagens presentes na cena e um resumo da cena, além de uma possível descrição clara ou detalhada da cena (isso depende do estilo do roteirista). Efeitos de transição e ângulos de câmera são opcionais, alguns roteiristas preferem fazê-lo outros delegam essa tarefa ao diretor, o que pode gerar um atrito entre as partes.

Exemplo:
CENA 1 – INT – CONSULTÓRIO DO DOUTOR LADWIG – NOITE

DR. LADWIG, em seu consultório com atmosfera limpa e harmoniosa, luzes baixas e um computador LCD com uma tela brilhante, decoração que contradiz com a xícara de tema infantil discretamente posicionada sobre a mesa. Dr. Com roupas sociais levemente bagunçadas e amassadas.

Perceba que essas notas indicam a direção de arte do filme, ao continuísta e ao figurinista o que eles devem fazer a respeito. Existe indicação, mas não existe imposição do que deve ser feito e como deve ser feito, pois a criação de arte não é seu papel e sim deles.

Depois disso sim você descreve com clareza as ações do personagem, tais quais suas falas.

Exemplo:
CENA 1 – INT – CONSULTÓRIO DO DOUTOR LADWIG – NOITE

DR. LADWIG, em seu consultório com atmosfera limpa e harmoniosa, luzes baixas e um computador LCD com uma tela brilhante. Dr. Com roupas sociais levemente bagunçadas e amassadas.

*CONTRA PLONGÉ:

LADWIG

(fitando a tela por alguns instantes)

* PLANO ABERTO

LADWIG

(Levanta-se, bebe o café rapidamente, deixa o copo sobre a mesa e vai até a porta)

* PLANO DETALHE

LADWIG

(Abre a porta e volta antes de fechar)

Maçaneta é aberta e em close vê-se rapidamente um borrão confuso de roupas passar e a porta quase ser fechada, mas sendo rapidamente aberta em seguida.

* PLANO AMERICANO (Câmera seguindo as costas do personagem)

LADWIG

(Vai apressadamente na direção das chaves)

*PLANO DETALHE (local onde estavam as chaves e a foto de família de Ladwig)

*CLOSE (rosto de Ladwig)

LADWIG

(Olha de relance para a foto de família e saí.)

Reparem que eu optei por usar os ângulos de câmera, é eficiente quando a produção é pequena ou tem pouca experiência. É igualmente útil quando você precisa de precisão em alguma cena, como um ponto chave da história (o que era meu caso nesse exemplo).

Antes de seguirmos é preciso falar um pouco sobre planos de câmera.

PLANO GERAL (P.G) – Um plano aberto, também pode ser uma PANORAMA, um plano de imagem grande, que não deve durar, devido ao fato de servir apenas como uma orientação dentro do espaço da cena.

PLANO ABERTO (P.A) – Um plano que mostra a imagem total da ação, como o personagem todo e algumas coisas ao seu redor.

PLANO MÉDIO/MEIO PLANO – Um plano que mostra meio corpo da pessoa acabou de certa forma sendo substituído pelo plano americano.

PLANO AMERICANO – Plano que filme o ator mais de perto, pela altura do Tórax.

PLANO FECHADO – Plano que exibe só o centro de interesse como, por exemplo, ombros e rosto.

CLOSE – Ângulo de câmera próximo ao centro de interesse, bastante aproximado.

PLANO DETALHE – Desvia o foco da ação para um detalhe, como as mãos ou objetos de cena.

PLANOS DE CENA – Regiões de foco de Atenção como primeiro plano na frente, segundo plano no meio e terceiro plano atrás. N.A – Interessante brincar com isso remover atenção de pontos ao outro, também útil como efeito de transição.

Além disso a ação é descrita detalhadamente, afim de que o ator obtenha exatamente quem é o personagem. Ele virá com uma espécie de Briefing (estudo preliminar) do personagem, ele terá uma ficha sobre o personagem, seu jeito, sotaques, maneirismos, psique. Logo, não tenha medo, eles não virão desarmados.


As falas são descritas de forma similar, porém você usa os nomes em caixa alta antes das falas.

Exemplo:
CENA 5 – INT – ESTACIONAMENTO – NOITE

LADWIG e SUPER HERÓI ANÔNIMO EM VERMELHO: Ladwig chega num carro tipo sedã, desce de lá e tortura psicologicamente o super herói em vermelho, faz com que ele chore com trejeitos infantis e vá em direção a um carro velho com dois corpos em avançado estado de decomposição. Depois o mata com uma arma estranha.

*PLANO ABERTO

CARRO

(entra com faróis acesos, estava molhado de chuva e é aberto por Ladwig, após sua parada)

*PLANO AMERICANO

LADWIG

(Sai do carro e caminha em direção ao super herói em vermelho)

*PLANO FECHADO (Super herói de vermelho)

SUPER HERÓI DE VERMELHO

(chora e fala com trejeitos infantis)

LADWIG

(fala friamente com um austero e assustador)

– Você sabe o porque está aqui? Não sabe?

E assim se segue o roteiro, perceba que ele não se importa em colocar a dúvida sobre os personagens, é cru e claro, pois a tensão deve ser criada pela linguagem cinematográfica e é nessa hora que se diferencia um livro de um roteiro. O feedback sobre o trabalho é constante pois é um trabalho de muitas mãos.

Naquela primeira cena que escrevi, transpus em roteiro enquanto escrevia esse artigo, e ela estava assim:

“Eram por volta de onze horas da noite e Dr. Ladwig continuava hipnotizado pela luz que surgia daquela fina tela iluminada no meio de um escritório em meia luz. O cheiro de café preenchia a sala relativamente bonita e confortável, feita para introduzir todos que a frequentavam em um relaxamento intenso.

Apenas um par daqueles óculos de lentes grandes, embora finas era o que podia ser visto ali. Ele se levantava, dava vagarosamente um gole no café que esfriava rapidamente, deixava a xícara decorada comicamente com elementos infantis, claramente escolhidos por uma criança de seis anos sobre a mesa, girava a maçaneta e saia pela porta, reabrindo-a rapidamente e pegando as chaves do carro que deixara perto de uma foto com um ele mesmo mais radiante, com menos barba e mais bronzeado, junto a uma mulher medianamente bela e um filho que sorridente segurava um boneco de algum seriado japonês do momento. Preferia não ter feito, mas o fez. Fitou a foto por uma quantidade ínfima de segundos e partiu.”

Ferramentas para roteirizar:

Uma ferramenta que recomendo fortemente é o CeltX (www.celtx.com). Ele é um gerenciador de projetos cinematográficos que possui um espaço para escrever roteiros, além de possuir cronogramas, espaços de storyboard, sinopse, argumento (coisa da qual ainda escreverei a respeito), notas de produção, notas de casting (elenco), notas de figurino, direção de arte e uma infinidade de outras ferramentas úteis. É gratuito e tem versão em português.

Uma demonstração do que ele faz.

Interface de roteiro com as notas, cada uma delas pode ser um link pra outra parte do projeto

Controle de personagem, com dados de casting, cenas onde está presente e até figurino.

Área de controle do Storyboard, poupa o trabalho de "Setar" ângulos de câmera, já que o Storyboard é demonstração de câmera.

Demonstração da Área de Cronograma, organização é essêncial.

Espero que as dicas sejam úteis. Na próxima vez falarei um pouco sobre argumento de cinema.

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